Fazer o bem sem olhar a quem



Cada um interpreta a frase como deseja. Chegam a trocar as virgulas, acentos, juntam palavras...

"Fazer o bem sem olhar a quem", no sentido original, significava fazer o bem (implicitamente uma obrigação) a qualquer um indiscriminadamente. Sem escolher este ou aquele, por critérios pessoais, de afeição, simpatia ou interesse pessoal.
Outros pronunciam, "Fazer o bem, sem olhar, aquém", no sentido de fazer o bem a si próprio, sem olhar, sem vigiar qualquer excesso. Utilizando-se do advérbio "aquém".
Outros ainda, pronunciam "Fazer o bem sem olhar, aquém", no sentido de fazer o bem com desleixo, abaixo das expectativas ou do correto a ser feito. Utilizando-se da preposição "aquém".
Inúmeras outras interpretações são dadas, passando pelas mais ilógicas e estapafúrdias possíveis e até mesmo com sentido sarcástico.

Somos humanos e como tais, carregados de defeitos.

Em nossa evolução, vamos passando estágios de amadurecimento, estágios de desenvolvimento do amor ao próximo.
Em um estágio primário, pensamos somente em nós. Nosso benefício pessoal. Nossa satisfação e descaradamente assim agimos.
Ex.: Nesta fase se alguém toca nossa campainha da porta pedindo ajuda, a resposta é sempre "Não".

Em um segundo estágio, inteligentes como fomos dotados, logo aprendemos a linguagem da serpente e dissimulamos, disfarçamos, usamos de subterfúgios para fazermos algo para nosso próprio prazer, com a justificativa que é para o bem de outro.
Ex.: Nesta fase nossa resposta para quem toca a campainha pode ser "sim" se estivermos com alguém por perto que queremos impressionar.

Depois, evoluímos para o estágio em que começamos a ter compreensão que outras pessoas precisam ter suas necessidades atendidas e elegemos nossos familiares e amigos para receberem "nossas boas ações".
Ex.: É a fase em que se reconhecermos a voz, diremos "sim" e se for um desconhecido, diremos "não".

A medida que evoluímos, escolhemos algumas pessoas, por critérios ainda pessoais, para serem "agraciadas" com nossas boa ações".
Nesta fase ainda estamos olhando para o próprio umbigo, apesar de muitos acreditarem que já chegaram a evolução total.
Pois nesta fase o que prevalece é a preocupação em saber se o bem que foi praticado, nos trouxe uma "paz interior", uma "sensação de estar recompensado", de "ter pago uma dívida" ou até de "ter sido perdoado por Deus".
Ex.: Fase em que olhamos pela câmera de segurança, pela fresta da janela ou pelo olho mágico para julgarmos se a pessoa é merecedora de nossa ajuda ou se a reconhecemos como um dos escolhidos pessoais. Também é a fase que alguns, tomam nota do bem praticado para depois incluir na prestação de conta no momento da sua oração diária.

É lógico que não posso deixar de notar que o bem foi praticado. O que é bom, para quem recebeu a boa ação, porém, ainda não é a evolução completa, pois, estes critérios pessoais de escolha a quem beneficiar, excluem pessoas e pior ainda, faz com quem quem praticou a boa ação, pare de praticá-la, tão logo se sinta recompensado.
Ainda é o "eu" que prevalece na relação.

No próximo estágio da evolução pessoal, encontramos aquelas pessoas das quais todos comentam, algo assim:
"Como ela consegue fazer tanto?"
"Ela não se cansa de fazer isso?"
"Caramba! Ela já ajudou beltrano, fulano, cicrana e não para!"

É o estágio onde as boas ações são praticadas porque é o certo a fazer.
Não mais é praticado o bem, em busca de fama, fortuna, reconhecimento, recompensa, perdão ou "likes" nas redes sociais.
É nesta fase que toda ação é praticada com os olhos voltado para o benefício de quem recebe a boa ação.
Nesta etapa do desenvolvimento, nossos atos começam a envolver questões como:
O alimento que vou dar é o adequado a pessoa que vai recebê-lo ou é o cardápio que gosto?
A qualificação que pretendo dar, leva em conta as habilidades e características da pessoa que vou ajudar ou é o que eu quero ensinar?
A pessoa a quem servi, ficou realmente feliz com a minha ação ou respondeu sim apenas para não me contrariar?
É quando o centro do universo deixa de ser o "eu" e passa a ser o "outro" e a medida que caem nossos filtros de seleção, o "outro" passa a ser "todos os outros".
Nesta fase o "fazer o bem sem olhar a quem" tem o correto sentido de não selecionar ou não escolher quem deve ser assistido, porém, leva em consideração quem é o assistido, quais suas necessidades, pois só então o "bem" será o "bem" para aquele que recebe e não mais o "bem" para aquele que faz.

Nesta fase, compreendemos que não precisamos anotar no caderninho de "Contas a Pagar e Contas a Receber" nossas boas ações, pois nada mais fizemos do que nossa obrigação.

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3Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; 4para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
Mateus 6:3

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